Ser mãe ou não ser, eis a questão.

“Você quer ter filhos?”

Talvez essa seja uma das perguntas que as mulheres entre os 30 e os 35 anos (37… ainda não tem? Tá na hora hein!) mais ouvem no seu dia a dia entre amigos e familiares — e estranhos também — como se o passar da idade trouxesse alguma clareza sobre a questão. Não, para nós mulheres, ou pelo menos não para mim, o passar da idade me trouxe mais dúvidas e desespero do que clareza. Talvez um desespero subconsciente, já que eu me esquivei do assunto por muito tempo, tentando esquecer que o relógio estava em contagem regressiva.

“Ahhhh, mas quando chegar perto da hora limite, a natureza vai falar mais alto, você vai sentir naturalmente essa vontade chegar”. Não, essa hora também não chegou. Hoje, com 38 anos e grávida, posso dizer que não foi a natureza que me fez decidir ser mãe — eu ainda poderia arriscar mais alguns anos à frente, claro, com um risco crescente de dificuldades e complicações. A paixão por crianças também não apareceu. A dúvida não sumiu.

Então, o que me fez decidir ter um filho? Por que decidi dar um pulo no escuro, pisar no acelerador e fazer um bebê? Gostaria de dividir os pontos que me fizeram decidir ser mãe. Vamos a eles.

A possibilidade de arrependimento de ter filhos é baixa

Já que paixão e desejo não apareceram na balança, a maioria dos fatores que me trouxe até essa decisão são práticos. E um deles é essa frase dita por um amigo: a possibilidade de arrependimento é baixa.

Quando ouvi essa frase parei pra pensar por alguns momentos. Talvez alguns dias, ou meses. Quantas mães vemos por aí que se arrependeram de ter filhos? Claro que existe uma porcentagem que, se pudesse, botaria o(a) marmanjo(a) de volta no útero e devolveria pra existência. Mas mesmo minha mãe — que matracou na minha cabeça desde criança que se não fossem os filhos ela teria feito muitas outras coisas na vida — eu não vejo arrependida (e esse é outro fator da lista). É claro que ela teria feito muitas coisas, mas será que não estaria pensando: “Ai, como eu seria mais feliz se tivesse tido filhos!” Quem sabe.

Pesquisando sobre o assunto, encontrei alguns estudos que mostram que a porcentagem de arrependimento de ter filhos fica na casa dos 7% nos Estados Unidos, 8% na Alemanha, 8% na Inglaterra e entre 11% e 14% na Polônia, dependendo do grupo analisado (referências no fim do post).

E quais são as razões pro arrependimento? Uma das razões é que mulheres que não sentem vontade de ser mães acabam cedendo a pressões sociais e tendo filhos, apesar de não se verem nesse papel. As mulheres que tiveram filhos nessa situação pensam que poderiam ser mais autorrealizadas e livres antes de serem mães. Outra razão é a situação econômica da família: em famílias com menos condições financeiras há mais arrependimento. Além disso, ser mãe ou pai solteiros, sem suporte financeiro e emocional do outro parceiro, faz com que o número de arrependimento aumente — esse fator está associado diretamente com o arrependimento da relação afetiva que havia antes da separação, que se estende pra criança. Um dos fatores mais importantes é que pais que se arrependem de ter filhos cresceram eles mesmos em ambientes caracterizados por violência e rejeição (mais sobre isso adiante). Tais condições afetam o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), aumentando a frequência e intensidade das experiências estressantes, contribuindo pro aparecimento de patologias psicológicas. Sintomas de ansiedade, depressão e psicossomáticos estão mais presentes em pais que se arrependeram de ter filhos.

E quanto a se arrepender de *não* ter tido filhos? Outro estudo mostra que 25% das mulheres que não tiveram filhos se arrependeram em uma idade mais avançada. Algumas afirmaram que não queriam infligir as mesmas dores que sofreram quando criança em seus filhos (mais uma vez a questão do ambiente).

Ou seja, pra mim, que não tenho uma forte opinião sobre ter ou não ter filhos, a estatística joga a favor de tê-los: a probabilidade de eu me arrepender de colocar os pequenos no mundo é metade da de não me tornar mãe.

É claro que isso é muito pessoal e estudos científicos não podem dizer a você o que fazer numa situação tão íntima. Se sua opção de não ter filhos é consciente e assertiva, simplesmente siga seu coração. O contrário também é válido. E eu, um ser que normalmente não consegue se decidir até o último minuto da prorrogação, esses dados trouxeram um reforço na ideia de ser mãe.

Não misturar as crenças de seus familiares, amigos e da sociedade com as suas

Como eu já relatei, minha mãe nunca expressou uma super paixão em ter filhos. Acho que foi mais o contrário, na verdade — sempre ressaltando o que deixou de fazer por conta deles. Até hoje, depois de anos de análise, eu carrego esse fardo, que não é meu. Até hoje é difícil diferenciar o que são as crenças dela do que são as minhas.

Como ouvi e senti esse peso da maternidade desde nova, de uma pessoa que é o seu mundo todo, essa se tornou a minha verdade: maternidade destrói a nossa vida. Essa foi a “verdade” que EU absorvi da minha infância e que estava na minha alma até muito recentemente. Meu irmão, por outro lado, tirou outra verdade, sendo pai por decisão aos 27 anos. E cada criança cria a sua, de acordo com suas particularidades.

Uma amiga me relatou certa vez que, como ela tem uma mãe submissa, que faz absolutamente tudo pelo marido, isso criou nela uma aversão e medo de se comportar da mesma forma em seus relacionamentos. Ela acredita que estar em um relacionamento automaticamente significa ser submissa. E por mais que ela veja relacionamentos ao redor dela que não o são, não consegue desassociar. Portanto, qualquer relacionamento, quando ela se permite, já começa na largada de se defender de um autoritário. Não tem como dar certo.

E tudo isso traz ao próximo tópico.

O modelo de família em que você foi criada não vai ser necessariamente o que você vai criar

Esse é outro item citado nas pesquisas científicas que fazem pais se arrependerem de ser pais, e que tem bastante influência sobre nossa decisão — estando nós conscientes disso ou não. Eu não cresci em um ambiente de violência física ou de rejeição, mas a relação dos meus pais sempre foi muito conturbada, com muito ciúme e discussões (violência verbal e emocional). Cada criança internaliza o que vê de uma forma; pra mim, toda essa instabilidade foi absorvida no pensamento de que eu não iria ter família pra fazer o mesmo, que meus pais eram inconsequentes em fazer aquilo conosco, que ter família estava fora de cogitação. Ou seja, o ambiente em que cresci criou em mim uma raiva com relação à família como um todo.

Mas a gente cresce, faz análise, começa a entender um pouco mais as coisas e separá-las pelo que elas são. Começa a entender que nossos pais fizeram o melhor que podiam ter feito naquele momento e que, apesar de tudo, eu estou aqui, bem, crescida e saudável. E que o que eles fizeram não necessariamente vai ser repetido por mim. Pode ser, mas eu posso conscientemente tentar fazer diferente.

Eu entendi e aceitei que vai demandar muito

Esse fala por si só.

Eu não preciso ser perfeita

Perfeccionismo é mais uma das razões — talvez eu não tenha citado — que faz pais se arrependerem de ter filhos. A cobrança interna, a importância que a opinião alheia tem sobre suas crias, geram muito stress.

Eu, racionalmente, já larguei mão disso. Já entendi que, se eu quiser ser mãe, falhar é regra e não exceção. Temos que tentar o melhor e nos esforçar pra melhorar — o que não significa que, mesmo diante de muitos erros, o resultado não possa ser bem-sucedido no fim.

Eu encontrei o parceiro pra seguir nessa jornada

Quem você faz parceria pra criar uma família importa absurdamente. Eu já tive outros parceiros na vida, relacionamentos sérios e duradouros com pessoas excelentes — mas ainda assim nunca tinha me sentido segura de que estava com a pessoa certa pra essa jornada. Agora é diferente.

Sabendo da dificuldade que é criar outro ser humano, ter um PARCEIRO, e não alguém que “te ajuda”, faz toda a diferença. Tenho certeza de que as noites acordados, as tarefas domésticas, os cuidados com o bebê serão compartilhados de forma justa. O que me traz muita tranquilidade.

Convenci-me de que posso fazer tudo que eu quiser, mesmo com filhos (só vai dar um pouquinho mais de trabalho)

Uma das cenas mais impressionantes que vi quando morei fora do Brasil foi numa caminhada de duas horas e meia até o Preikestolen, na Noruega. Quando estava descendo a trilha, já super cansada de toda a maratona de subida, o peso da mochila, os joelhos doendo, avistei uma família jovem: pai, mãe, uma criança de uns 3 anos, um bebê carregado nas costas, e o cachorro da família.

Em algum ponto o cachorro parou em uma pedra, com medo de pular, e começou a latir. O pai, que carregava o bebê, pegou o cachorro no colo, colocou embaixo do braço e continuou a caminhada tranquilamente — com bebê nas costas e cachorro no colo, com a naturalidade da vida.

Tá aí o meu modelo de família que eu pretendo construir.

Eu admiro as famílias

Minha família é uma bagunça. Problemas de saúde, problemas financeiros, fofocas sem fim — bem parecida com uma daquelas novelas mexicanas que passam às 15h45 no SBT.

Mas, apesar de tudo, eu gosto de fazer parte dessa bagunça. Gosto de ir visitar meus pais (que são separados), brincar (um pouco) com meus sobrinhos e ficar rindo das histórias. Toda vez que eu volto pra casa (moramos há uns 100 km de distância) fico sentindo que queria um pouquinho mais. E pra que essa questão de família seja preservada, é necessário que os pequenos venham ao mundo. É simples como isso.

Enfim, esses são alguns motivos que me decidiram por ter um bebê. Se eles serão suficientes, só o tempo dirá. Em breve teremos a casa cheia de brinquedos, roupinhas e bagunças espalhadas.

— M.

Referências:

– [Estudo sobre arrependimento parental — *PLOS ONE*](https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8294566/pdf/pone.0254163.pdf)

– [“Why Parents Regret Having Children”](https://www.theatlantic.com/family/archive/2021/08/why-parents-regret-children/619931/) — *The Atlantic*

– [“The women who chose to go childfree—and then regretted it”](https://www.smh.com.au/national/the-women-who-chose-to-go-childfree-and-then-regret-it-20151030-gkmuk5.html) — *Sydney Morning Herald*

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