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Como sabemos, a via de parto no Brasil pode ser “escolhida” pela mulher: parto normal ou cesárea. Escolhida em termos, já que hoje no Brasil existe uma dificuldade enorme de encontrar profissionais que aceitem realizar um parto normal no sistem privado de saúde. Sei que no sistema público é mais comum, mas tentar usar o plano de saúde para ter um parto normal é um desafio. O plano paga pouco, a dedicação do médico tem que ser grande, já que um parto normal pode levar até 10, 20 horas, o médico tem que estar de prontidão, uma vez que quem decide a hora de vir é o bebê e muitas outras questões. Mas existe um meio do caminho — equipes de médicos particulares que estão dispostos a fazer parto normal, a um custo. Custo razoável ou elevado, dependendo da equipe, da região, da quantidade de apoio.
Depois de algum tempo de conversas com o X., de muitas leituras, de ver estatísticas de risco pros dois tipos de parto, eu decidi pelo parto normal. Natural de preferência — natural é sem nenhuma intervenção como anestesia, indução, fórceps — mas normal seria excelente também. Eu paguei uma equipe para me ajudar nessa jornada. Mesmo tendo plano de saúde, optei por escolher uma equipe que já tinha experiência, custeando a equipe médica (o hospital o plano de saúde quem cobriu).
No fim, meu parto em si foi bacana. Respeitoso, normal da forma como eu queria — mas nem próximo do que imaginava. E acredito que algumas coisas poderiam ter ajudado a alcançar um parto mais positivo do que foi. Por isso decidi listar meus “erros” e o que eu faria diferente. Então, se quiser ter um parto bem DESAFIADOR, pode seguir esses seis passos:
1. Não confie na sua equipe médica
Se você quer ter um parto mais difícil do que o esperado, esse é o passo número 1.
Pense que você estará em um dos momentos mais frágeis da sua vida, com dores intensas, muitas dúvidas e apreensões, presente neste mundo somente de corpo — porque a alma já saiu flutuando há tempos. A mente não responde, o raciocínio não existe. Você está vulnerável.
Nessa situação você precisa ter pessoas por perto nas quais você confie que tomarão as melhores decisões por você, sem interesses escusos, de uma forma que siga suas vontades e ao mesmo tempo não coloque a sua vida ou a do seu bebê em risco. É uma mistura complicada. De um lado, mães, pai, parceiros, irmãos, pessoas próximas estarão ali por você, te apoiando e transmitindo suas vontades pra equipe médica. Por outro, é imprescindível que você confie que o médico escolhido seguirá como você ou seus porta-vozes desejam — sem fazer pressão, terrorismo, nem desrespeitar suas escolhas.
Além de competente no que faz, sua equipe deve ter sua confiança de olhos fechados, pra que em momentos de tensão você possa seguir a orientação desses profissionais sem titubear.
Não foi o que aconteceu comigo. Por algum motivo que não sei explicar ao certo — ser uma escorpiana desconfiada, talvez? — eu não consegui estabelecer uma relação de confiança nem com a minha médica, nem com a enfermeira obstétrica. Eu já havia trocado de médico duas vezes; a obstetra era muito capacitada, fazia somente partos normais, me acolheu super bem lá pelas 26 semanas de gestação. Mas sabe aquela química do primeiro encontro — do segundo, terceiro, décimo? Não rolou. Eu não tinha desconfiança na capacidade dela como médica nem da capacidade dela em fazer com que minhas vontades fossem atendidas. Mas ela era fria, meio durona, meio cheia da razão. Eu não precebi que essa não era uma química legal e não era um temperamento de que eu gostava muito. No fim da gravidez, depois da 35ª ou 36ª semana, quando as coisas começaram a ficar mais complicadas, aí a desconfiança cresceu mais ainda. Ela começou a me receitar remédios naturais pra acelerar o parto e fez terrorismo quando o meu líquido amniótico ficou baixo — mas ainda super dentro do normal pro período — ameaçando a indução. Ela tinha uma viagem logo em seguida da data prevista do meu parto e, se o bebê demorasse um pouco mais, tínhamos combinado que outra médica assumiria. Isso foi minando a confiança e segurança, logo no fim da gravidez.
Foi uma mistura bombástica pro parto. E eu demorei a perceber. Acho que me dei conta dessa falta de confiança somente no meu trabalho de parto. Mas tive certeza no pós-parto, que foi aí sim o divisor de águas, porque foi super complicado.
Durante o trabalho de parto, qualquer orientação que ela me dava eu questionava. Não queria seguir. Eu fiquei fechada no meu mundo com o apoio do meu parceiro e da minha doula — que foram as pessoas que me fizeram sentir que o parto foi legal, apesar de tudo. Eu, inconscientemente, não deixei ela participar do meu momento, e no fim, essa foi uma boa decisão no geral, pois a imagem que eu tenho é de um bom parto.
No fim deu tudo certo. A L. veio ao mundo depois de muita luta, 19 horas de parto, mais de 6 horas de expulsivo. Mas eu não tenho uma lembrança positiva do trabalho da equipe médica que contratei — somente da doula, que foi contratada separadamente. E se eu fizesse outro parto normal, com certeza não seria com aquela equipe.
2. Leve o seu pior medo até o dia do parto
Se você quer que aquilo que mais teme no seu trabalho de parto aconteça, não lide com seu medo antes. A lei da atração vai fazer com que você vivencie exatamente aquilo que teme. Não, não sou profeta do caos, nem fatalista, mas já vivenciei muitas vezes que aquilo que visualizei, imaginei, desejei, sonhei — pro bem ou pro mal.
Meu maior medo era ter um parto induzido. Não tinha medo de cesárea, de anestesia ou das dores. Mas indução era algo que sempre me deixou com a pulga atrás da orelha. Acho que pelo fato de eu querer um parto natural e ter lido muito sobre como as coisas desandam quando a indução é feita, no começo ou no meio. Depois da indução, as dores da contração tendem a ser mais fortes, o que faz com que anestesia seja necessária, o que faz com que o trabalho de parto desacelere, o que faz com que o uso de vácuo, fórceps, episiotomia sejam mais prováveis. Pelo menos isso era o que eu acreditava.
Minha doula tentou me dissuadir dessa ideia, contando sobre seu próprio trabalho de parto induzido e tranquilo, sendo super positiva, tentando me ajudar com esse medo. Mas eu não consegui abandonar a tensão e tentei esquecer, ao invés de lidar. No fim acabei quase tendo o início de parto induzido por conta de líquido aminiótico baixo, mas por sorte a L. decidiu vir na noite anterior à indução marcada. Pelo menos dessa eu me safei, mas não da indução em si.
Durante o trabalho de parto a descida da L. não estava acontecendo de forma satisfatória. Depois de umas 6 ou 7 horas tentando colocar aquele pequeno corpo para fora pra fora, a médica propôs usar ocitocina — a mesma medicação da indução — pra intensificar as contrações. Eu sabia o que aquilo significava. E então eu quebrei. Toda a força emocional e psicológica que eu tinha até aquele momento desmoronou. Não estava mais aguentando as dores, estava me sentindo frustrada, cansada e preocupada por não conseguir trazer a L. ao mundo, mas estava aguentando firme. Até a médica propor o hormônio.
Como relatei antes, a desconfiança na médica só piorou a situação. Não acreditava que ela estava fazendo o melhor pra mim e pra a L., achei que ela estava tentando somente terminar aquilo rápido e ir pra casa.
O que eu temia — indução, anestesia, vácuo — tudo aconteceu como eu NÃO queria. Fórceps e episiotomia estavam proibidos, então pelo menos esses eu evitei. Mas acredito, sinceramente, que se eu tivesse lidado melhor com esse medo antes do parto, as coisas teriam sido mais suaves.
Por isso afirmo: lide com seus medos antes do trabalho de parto. Converse com terapeuta, amigas, família. Veja vídeos com final positivo daquilo que você mais teme. Vai ajudar — e muito.
3. Não faça fisioterapia pélvica
Meu ginecologista de confiança, de anos, me recomendou inúmeras vezes que eu fizesse fisioterapia pélvica. Dentre as 1521 coisas que eu tinha pra fazer durante a gravidez, essa foi uma das que decidi deixar de lado, não seguindo sua orientação. E é uma das coisas das quais eu me arrependo verdadeiramente.
No dia do trabalho de parto, não importava o quanto minha médica falasse, demonstrasse, fizesse mímicas — eu não tinha ideia da força que tinha que fazer pra colocar a L. pra fora. Minhas contrações ainda por cima não ajudavam, eram muito fracas.
Eu havia estudado muito, praticado algumas respirações, mas nunca colocado em prática a tal da força. E é uma força específica, que até hoje não sei se conseguiria reproduzir. Isso aprendemos na fisioterapia pélvica, literalmente colocando um balãozinho dentro da pelve e aprendendo a empurrá-lo pra fora.
Devido a vários fatores que não dá para contabilizar, entre eles um hematoma inesperado, a longa duração do expulsivo, talvez à força errada que eu estava fazendo, acabei tendo prolapso de bexiga e intestino. Algo que não tem cura e que me levou a fazer fisioterapia pélvica de qualquer forma, só que ao invés de preventiva e que ensina, uma para resolver problemas. Por isso, se você puder, faça um esforço, perca a vergonha e a preguiça (que eu tinha muita) e procure uma boa fisioterapeuta pélvica pra te ajudar.
4. Continue trabalhando feito uma maluca durante a gravidez (e se possível assuma uma nova função na empresa)
É. Se estresse bastante, trabalhe como uma doida e ainda assuma uma função completamente nova, que demande um tempo gigantesco pra aprender e que seja essencial pra a sua empresa. Isso, se você quiser que o seu parto seja mais complicado do que poderia ser.
Tenho uma suspeita bem grande de que as complicações do meu trabalho de parto possam ter sido influenciadas, em parte, pelo estresse que passei durante a gravidez por conta do trabalho. Eu já sabia que estava grávida, de cerca de 2 meses, quando decidi assumir a função de uma pessoa que estava saindo. E não era uma função que eu já tivesse desempenhado, ou que tivesse algum conhecimento. Era um trabalho intenso de aprendizado em uma área vital pra a empresa. O nível de estresse foi elevado, e lidar com a pessoa que estava saindo foi uma das piores experiências que já tive.
Além disso, eu deveria ficar de repouso quando o meu líquido aminiótico começou a ficar abaixo do desejado. Eu segui as orientações por 1 semana, mas depois eu achei que estava tudo bem, e voltei a trabalhar como uma doida. O líquido, que tinha estabilizado, caiu novamente, desencadeando todo o estresse de agendar a indução do parto.
Já li inúmeros livros que correlacionam estresse durante a gravidez com efeitos negativos pros recém-nascidos.
Se puder, não faça isso. Eu tinha escolha e escolhi mal.
Por você e pelo seu bebê.
5. Acredite que possa fazer tudo sozinha
Minha mãe insistiu inúmeras vezes pra vir me ajudar. Disse que o parto e o pós-parto não eram coisas fáceis, que eu iria precisar de algum tipo de suporte. Eu, teimosa e ingênua, achei que somente nós dois — eu e o X. — conseguiríamos dar conta de tudo sozinhos. Sem ajuda com as tarefas de casa, com a comida, com a nova recém chegada, sem suporte físico ou emocional. E claro, eu dei com os burros n’água. Não é nem meramente possível. Sem nenhuma chance.
Talvez se meu pós-parto não tivesse sido tão complicado, se a L. tivesse nascido um bebê unicórnio, se eu não tivesse tido depressão pós-parto, se, se, se. Muita coisa precisaria ter se alinhado pra que essa história de fazer tudo sozinha tivesse dado certo. E ainda assim, acho muito difícil. Não deu certo.
No fim, meu pai e meu irmão foram ao hospital dar apoio emocional depois que eu surtei e tive um colapso nervoso, chamando meu psicólogo, um amigo do trabalho, minha médica e Deus e o mundo pra me acudir. Meu pai e minha cunhada vieram nos primeiros dias da L. ajudar a limpar e cozinhar. Minha mãe e a esposa do meu pai também vieram dentro de algumas semanas pra dar mais suporte, físico e emocional. Foi essencial pra manter não só as necessidades básicas atendidas, mas também a cabeça no lugar. Eu estava um caco.
Mas essa ajuda poderia ter sido planejada com eles, se eu tivesse sido mais humilde. Não precisaria ter sido no susto, às pressas e com tanta preocupação.
Se você quer ter uma experiência não tão legal, acredite e faça de tudo pra evitar todo e qualquer tipo de ajuda — mesmo que te ofereçam explicitamente.
6. Acredite que nada possa sair do plano
Tenho que confessar que devo ter sido inocente, ou arrogante, com relação ao meu parto. Provavelmente os dois. Apesar de saber racionalmente que um trabalho de parto é bastante imprevisível, acho que não acreditava nisso verdadeiramente. Eu tinha em mente como o parto seria, como eu passaria por aquilo, como me sentiria no momento do nascimento, como lidaria com as dores. Eu me foquei bastante na ideia de que se eu pensasse só em coisas positivas, lesse livros sobre hypnobirthing, nada poderia dar errado. Não me preparei psicologicamente pro desconhecido. Ledo engano. Muita coisa deu errado.
Apesar de estatisticamente o parto normal ser mais seguro pra mãe e bebê que uma cesárea, as coisas podem dar errado. Eu não prestei atenção nos pontos que poderiam sair fora do controle, mesmo que a probabilidade fosse baixa.
Em minha defesa, posso dizer que ninguém fala do lado negativo do parto normal. Todo mundo fala dos riscos da cesárea, de como é uma cirurgia de grande porte e de tudo que pode dar errado. Mas dos riscos do parto normal, prolapso, dos efeitos na mulher após o parto, como fica sua pepeka, e como sim, pode haver contratempos, isso ninguém fala. Parto normal, até onde eu tinha pesquisado – e pesquisei muito – era tudo flores. Mas eu não me atentei aos espinhos.
Não sei se encararia novamente um parto normal — ou qualquer outra via — mas se eu o fizesse, iria de mente aberta. Aceitaria que o caos pode bater à porta e que tudo aquilo que eu me preparei e planejei pode ser avassaladoramente diferente da realidade.
—
Claro, gente, isso aqui é ironia. Pra deixar claro: não faça nada disso que descrevi se você quiser ter um parto mais tranquilo e positivo. Nem tudo é possível financeiramente a todas (como fazer fisioterapia pélvica com profissional). Mas existem diversos materiais e vídeos online que ajudam nessa e nas outras questões.
E se você estiver perto do seu parto, tenha uma boa hora.
— M.



