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O que é o medo?
Segundo o dicionário, é um estado emocional doloroso ou perturbador, desencadeado pela percepção de um perigo real ou imaginário, presente ou futuro. Faz sentido, parece isso, certo? Mas e se olharmos segundo a lente de alguns líderes espirituais da atualidade, o que encontramos?
Para Eckhart Tolle o ego (a mente pensante) odeia o presente porque não pode controlá-lo. Como o ego se sente constantemente sob ameaça de “desaparecer”, ele projeta cenários catastróficos no futuro. Para Tolle, o medo é a ansiedade de que algo falte ou dê errado no amanhã, gerando uma disfunção psicológica, já que você não pode agir no futuro, apenas no agora.
Para Joe Dispenza, quando você sente medo de algo que ainda não aconteceu, seu cérebro está antecipando o pior cenário possível com base em traumas ou experiências antigas. Você condiciona seu corpo a viver no passado, liberando hormônios do estresse (cortisol e adrenalina). Para Dispenza, o medo é o vício do corpo em um estado químico de sobrevivência, o que bloqueia a criação de uma nova realidade.
Para Bashar, o medo não é “mau”, mas sim um indicador. É o seu painel de controle dizendo: “Ei, você está sustentando uma crença que não é matematicamente verdadeira para quem você realmente é”. A definição dele se resume a: Medo é a energia da excitação (entusiasmo) filtrada através de uma crença de limitação. Se você mudar a crença, a mesma energia que gerava medo vira pura empolgação.
Olhando todas essas definições, parece que o medo tem relação com nosso futuro, mas também está atrelado ao nosso passado. Parece estranho, mas faz sentido, pense comigo. Se imaginamos, no momento presente, que algo que nos aflige vai acontecer, o medo aparece. Se imaginamos algo prazeroso, sentimos qualquer outra coisa que não medo. Ok, nesse sentido, podemos imaginar que ele está associado ao futuro. Mas, por que então, pensar em algo que pode acontecer no futuro traz medo para algumas pessoas e não para outras? Joe Dispenza esclarece. Você tem medo de abatu? Pense em uma abatu enorme, olhando para você. Qual sua sensação? Nenhuma. Seu cérebro nem consegue sair do loop de pensamento: o que é uma abatu? Se não tivemos a experiência, se não soubermos o que algo é, não podemos ter nenhum tipo de reação com relação a tal coisa, situação ou processo. E, então, nesse sentido, o medo está relacionado a experiências passadas que ficaram guardadas em nossa memória (ou abaixo dela, no subconsciente, sem termos qualquer acesso). Ou seja, o medo vem de experiências passadas.
Medo para mim é, além de todas as definições acima, a linha mestra da minha vida. Foi baseado nele que eu fiz grande parte das escolhas até aqui, e, para ser totalmente sincera, ainda continuo fazendo. Não que eu tivesse consciência disso desde sempre. Não, eu não tinha. Eu acreditava que todas as decisões que eu tomava estavam baseadas em raciocínios lógicos e autênticos (ainda pretendo escrever sobre a tomada de decisões). Doce ilusão.
Mas existem dois tipos de medo. Existe o medo sutil, aquele que só me fez desviar um pouco o caminho, por não querer encontrar com algo específico ou que aquele que não foi suficiente sequer para me desviar de alguma trajetória que eu havia escolhido. Mas existe um outro, um visceral, que beira ao pavor, que traz uma sensação de morte, de fim, de escuridão. Esse, felizmente, eu só encontrei umas 2 ou 3 vezes na minha jornada, mas ainda assim, é bastante traumático.
Eu sempre achei que todas as pessoas fossem assim. Mas ao longo da minha trajetória eu fui descobrindo que esse companheiro é meu e que ele não caminha lado a lado, de mão dadas e, às vezes com o braço ao redor do pescoço, de todas as pessoas, como faz comigo. E, sabendo disso, sabendo que é possível viver sem tanto medo, o caminho fica mais suave, a possibilidade e a esperança crescem, e começa a surgir o vislumbre que eu posso fazer algo a respeito. É, mais uma vez, uma tomada de consciência que pode levar ao caminho da liberdade.
Nessa série eu quero dividir as minhas experiências de encontro com o pavor em três partes, começando de trás pra frente. A parte 1 vai falar como minha consagração da Ayahuasca trouxe à tona novamente esse medo primordial, a parte 2, sobre o meu pós-parto, quando eu finalmente internalizei a sequela do meu parto, o prolapso de bexiga e intestino e a parte 3, de como eu surtei no hospital apenas 3 dias depois da L. nascer. Segure-se na cadeira, não são estórias prazerozas.
A medicina da floresta
Por mais que a L. já tenha quase três anos, meu parto e o pós-parto continuam sendo um assunto difícil de pensar, difícil de digerir, difícil de pôr pra fora. Mas, um assunto escondido, não trabalhado, não processado, é um jardim fértil para que processos indesejados floresçam. Como o medo.
Mas a medicina da floresta, dizem, não tem medo. Não poupa cantos escondidos da mente para não incomodar quem a aceitou. Não tem dívida de gratidão. Pelo contrário, é exatamente lá que ela vai. E eu sabia que tocar essa ferida aberta era uma grande probabilidade durante minha experiência. Mas também, tinha a esperança de ter contato com estados mais agradáveis, como luzes brilhantes e reluzentes, anjos cantando mantras divinos, cenas confortáveis, mensagens de ETs sobre a evolução da Terra e dos seres humanos, etc. Não, não aconteceu.
Mas, por que, primeiramente, eu decidi ter essa experiência?
Eu nunca usei nenhum tipo de substância que me tirasse do meu estado normal de consciência. A coisa mais forte que eu usei na vida foi o álcool, e o álcool não te tira do estado de consciência no sentido de uma expansão — como é proposto pela ayahuasca — ele simplesmente amortece alguns dos seus sentidos, te deixa mais letárgico e com menos filtros. Apesar de ele também trazer algo do eu autêntico – existe os bêbados amorosos, os raivosos, os violentos, etc., considero isso mais um resgate do que uma expansão.
Não lembro exatamente da primeira vez que ouvi falar de Ayahuasca, mas tenho certeza de que não faz muito tempo. Talvez algumas semanas, meses atrás, mas não sei exatamente quando. A probabilidade maior é de que o assunto entrou no meu feed do Youtube e eu comecei a ver alguns vídeos. Sabia que uma amiga minha havia tomado e conversamos sobre o assunto. Ela explicou que ela ia em consagrações anualmente, que estava prestes a ir novamente e me convidou. No início, fiquei neutra, mas depois o interesse foi crescendo. Ela falou também, que se fosse para ser, a ayahuasca me chamaria, eu não precisava me preocupar com a decisão naquele momento. Assisti a mais vídeos de como a medicina funcionava e tomei coragem de ir. Porque abrir as portas do eu interno é, realmente, um ato de coragem.
Gostaria de ressaltar que esse aqui não é um relato da minha experiência de ayahuasca, existem milhares de relatos no YouTube e na internet, caso você esteja interessada. O que quero contar é um ponto específico, que aconteceu nos primeiros minutos da experiência e que fez com que eu me deparasse mais uma vez com medo primordial.
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Chegamos ao local da consagração por volta das 18h30. A cerimônia começaria às 20h, e nesse meio tempo tiramos nossas coisas do carro, ajeitamos nossos pertences no local, e o maestro — como eles chamam quem conduz o ritual — conversou comigo sobre o que aconteceria. O local era em um sítio, afastado da cidade, rodeado de árvores e natureza, e um som de queda de água era ouvido ao longe. Apesar de ser um local que geralmente fica cheio, nesse dia somente eu e minha amiga viemos para a consagração.
Durante a conversa com o maestro ele explicou como era o ritual, o que era a planta, quais os efeitos no corpo, como as pessoas normalmente reagiam e, também, me fez várias perguntas. Uma das perguntas que ficou na minha memória foi: “o que você está sentindo?” E eu disse: “medo”. Ele corrigiu, disse uma ansiedade né? Eu só concordei e fiquei quieta, mas não, não era ansiedade. Era medo mesmo. Ele já estava à espreita.
A cerimônia começou e eu tomei o chá. Esperei que ele fizesse efeito — pode levar entre 5 e 30 minutos, ou pode não fazer efeito nenhum. No meu caso levou uns 20, 30 minutos para que algo diferente começasse a acontecer. Por algum tempo até achei que nada aconteceria.
Mas o primeiro efeito veio do *som*. Nos rituais de ayahuasca a música é parte fundamental da experiência: cânticos são entoados, músicas são reproduzidas, instrumentos são tocados. A abertura da cerimônia começa com um chamado, cantado pelo assistente do maestro, para que a “borracheira” — como eles chamam o efeito da ayahuasca — apareça. E, no meio da música, o efeito apareceu. A voz do assistente, que estava ressoando normalmente nos meus ouvidos até então, pareceu, no instante seguinte, ter sido teletransportada para uma sala de concerto de ópera, onde tudo reverberava de uma forma muito, muito ampla.
E aí, começou.
A mente disparou a um milhão por hora, nada ficava parado nela por 1 segundo. Tudo parecia escuro, lento, o som alto demais, eu percebendo tudo ao redor.
Começou a tocar um som que mexeu com algo ainda mais profundo dentro de mim — parecia um som daqueles rituais macabros dos filmes do Indiana Jones, onde animais ou seres humanos eram sacrificados. Tambores, batuques, sons com frequências baixas e vibrantes que invadiam meu ser e faziam minha mente querer racionalizar mais e mais e mais. Parecia literalmente a trilha sonora do medo, uma música escolhida a dedo por ele, para poder se libertar e correr livre dentro de mim.
A música deve ter sido o gatilho de algo que já estava latente. O desconforto foi crescendo, crescendo, saiu da mente, começou a invadir o corpo e eu não conseguia ficar parada. Quando tudo ficou insuportável demais eu chamei o maestro e disse que eu estava com muito medo. MUITO MEDO. Ele tentou me acalmar, dizendo para eu prestar atenção no que ele falava, que a experiência teria começo, meio e fim. Não consegui ouvir e o desespero começou a crescer. Eu não queria ele ali, não confiava nele e não queria saber do que ele estava falando — eu já passei por isso e não é nada relacionado à pessoa em si, nada de errado que ela tenha feito, mas somente uma reação visceral de fuga do desconhecido. Era como se ele não entendesse a profundidade do que eu estava sentindo, me falando somente palavras vazias. As palavras dele só pioravam meu pavor.
Percebendo a situação, minha amiga, que estava sentada ao meu lado, veio até mim e me abraçou. Eu tentei chorar, mas nada saía dos olhos. Pedi para ela para que aquilo tudo parasse, que eu não queria mais estar ali, que eu estava apavorada. Ela me abraçou mais forte e eu não tinha palavras para explicar o que estava sentindo, do que eu estava com medo, eu só conseguia repetir: estou com medo, com muito medo. Não era medo, era pavor, horror, desespero. E, dentro de toda essa intensidade de sentimentos amedontadores, eu já não tinha mais energia. Eu tentava chorar, tentava me debater para que aquilo saísse, mas nada acontecia. A mente estava lutando contra si mesma, tentando racionalizar que aquilo não era real, que eu estava somente em uma experiência que iria passar rapidamente e que eu estava segura. Mas o outro lado dela afirmava que eu estava ali para ser aprisionada naquele estado mental, que eu nunca mais sairia dali, e que todo esse ritual foi uma construção para me aprisionar e tirar a minha liberdade. Foi um inferno.
E então veio o momento seguinte: eu desisti. Foi 1 segundo onde tudo ficou quieto e eu desisti de lutar, desisti de racionalizar, desisti de fugir. Não foi racional. Foi pelo cansaço, pelo sentimento de total descontrole. Foi um “ahhhhh, acabou”. E nesse segundo, nesse exato segundo, enquanto minha amiga me dizia algumas palavras de conforto eu senti algo vindo, algo querendo sair. Eu só tive tempo de dizer: “desculpa, eu preciso vomitar” e saí correndo do salão. Mal deu tempo de chegar no local apropriado e foi tudo para fora. De uma vez. Sem avisar de antemão, sem passar mal, sem enjoo. Só saiu. Eu dobrei a perna e sentei sobre meus tornozelos, com a cabeça baixa, quase no chão, esperando por mais. Fiquei nessa posição de entrega por uns 30 segundos, olhando para a grama que tinha ali, sem pensar em nada. Nada mais veio. Recobrei os sentidos, ou melhor, minha mente voltou, e eu disse: “preciso fazer xixi”. E a partir desse ponto, não havia mais medo.
Após o ritual eu conversei com minha amiga. Perguntei para ela quanto tempo tudo tinha durado, tive a impressão que tudo aconteceu entre 5 e 10 minutos. Ela afirmou que todo o processo durou menos de 1 minuto. 1 minuto de terror que pareceu uma eternidade.
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Não quero entrar na questão do que aconteceu no resto da cerimônia. Posso relatar em alguma outra ocasião. O que quero deixar aqui é que o tom do resto da cerimônia foi dado por esse único minuto. Na verdade, o tom de 40 anos de vida podem ser resumidos por esses sessenta segundos de experiência.
E é isso que eu chamo de medo intrínseco, fundamental, primordial. Um companheiro latente, pronto para colocar suas garras para fora nos meus momentos de fragilidade. Eu me lembro de ter sentido pela primeira vez esse medo primordial por volta dos 8 anos. Não tão intenso, não tão intrínseco, mas um medo desconexo da realidade, sem fundamento e sem origem. Ele aparecia quando minha mãe desligava a TV no horário de propaganda política. Um desconforto no chacra do coração, completamente sem sentido.
Depois ele retornou por volta dos 10-12 anos, quando eu costumava jogar videogame de fases. Eu chamo jogo de fases quando o jogo quase nunca termina, você tem que ir passando de cenário em cenário, matando chefões, coletando recompensas, realizando tarefas, e assim por diante. Eu comecei a ter sensações estranhas, beirando ao pânico, enquanto jogava. Então parei.
Além desses momentos na infância, eu senti esse medo *primordial* em duas ocasiões recentes.
A primeira foi quando eu ainda estava no hospital, onde eu tive uma crise nervosa, por conta da nossa situação. O outro foi uns 8 meses depois da L. nascer, quando finalmente consegui aceitar que eu tinha um prolapso por conta do parto — e que teria que viver com isso pelo resto da minha vida. E foi dessa segunda vez que eu encontrei uma ferramenta para lidar, pelo menos superficialmente, com esse medo.
E é sobre essa última experiência e a ferramenta que será o assunto da parte 2.
Te vejo lá.
— M.



